Falso advogado, falso juiz, falso promotor: o golpe da audiência virtual que está esvaziando contas bancárias

O golpe começa com algo que parece absolutamente legítimo.

A vítima recebe uma ligação pelo WhatsApp.
Na tela aparece a foto do seu próprio advogado.
O nome está correto.
A imagem é familiar.

Mas o número não é o mesmo. Esse detalhe passa despercebido.

Do outro lado da chamada, alguém informa que saiu um alvará judicial e que será necessária uma audiência virtual rápida para liberar os valores. A urgência é cuidadosamente construída: trata-se de um procedimento formal, necessário para viabilizar a transferência da quantia.

A vítima aceita participar.

Na suposta audiência, surge um segundo personagem: alguém que se apresenta como promotor. Em seguida, um terceiro, como juiz. A encenação é coordenada. Em alguns casos, há uso de fundo virtual com brasão institucional. A linguagem é formal. O discurso é técnico. Tudo é estruturado para reduzir a desconfiança.

O objetivo, no entanto, não é discutir o processo.

É acessar o dinheiro.

Em determinado momento, os falsos representantes do sistema de Justiça informam que, para liberar os valores do alvará, será necessário realizar um procedimento técnico. Pode ser o pagamento de uma “taxa” via Pix. Pode ser a confirmação de dados bancários. Pode ser o compartilhamento de tela “para validar o depósito”, o que normalmente é feito pelo WhatsApp.

É aqui que o golpe se concretiza.

Ao compartilhar a tela do celular ou do computador, a vítima expõe seu aplicativo bancário. O criminoso passa a orientar cada passo: “abra o aplicativo”, “confirme aqui”, “digite o código”. Sob o pretexto de concluir a liberação do alvará, a própria vítima realiza transferências que vão direto para contas controladas pelos golpistas.


Não houve invasão hacker sofisticada.
Houve manipulação psicológica com roteiro jurídico.


Esse tipo de fraude é particularmente perigosa porque explora três elementos poderosos: confiança, autoridade e expectativa financeira. A vítima já espera receber um valor judicial. Quando alguém, com a identidade do seu advogado, informa que o alvará foi expedido, a notícia ativa esperança e urgência simultaneamente. A presença de um “juiz” e de um “promotor” na chamada reforça a sensação de legitimidade.


Trata-se de teatro digital cuidadosamente ensaiado.


Os criminosos utilizam dados reais obtidos em processos públicos, redes sociais ou vazamentos anteriores. Conseguem fotos do advogado verdadeiro, replicam a imagem no perfil do WhatsApp e entram em contato com clientes que já aguardam decisões judiciais. Muitas vezes, o próprio advogado só descobre o golpe quando o cliente já foi prejudicado.

É importante compreender algo fundamental: não existe audiência improvisada por WhatsApp para liberar alvará. Juízes não participam de chamadas informais para orientar transferência bancária. Promotores não exigem Pix para destravar valores judiciais. Nenhuma autoridade legítima ou advogado solicita compartilhamento de tela para liberar dinheiro.

Quando há pedido de Pix, compartilhamento de tela ou instalação de aplicativo remoto, trata-se de fraude.

Para advogados, o risco é duplo. Além do prejuízo ao cliente, há dano reputacional. O uso indevido da imagem profissional gera abalo de confiança e pode provocar conflitos éticos complexos. Por isso, escritórios precisam adotar medidas preventivas claras: orientar clientes de forma expressa de que jamais haverá solicitação de valores via WhatsApp fora dos canais formais; divulgar aviso público antifraude; padronizar comunicação institucional; e reforçar que qualquer mudança de número será comunicada oficialmente.

Para clientes e jurisdicionados, a regra é simples e objetiva: nunca realize transferências ou compartilhe tela durante chamada recebida. Se houver qualquer informação sobre alvará ou liberação de valores, desligue e confirme diretamente com o número oficial do advogado salvo anteriormente, ou com o próprio escritório por meio dos canais já conhecidos. Não utilize números enviados na própria ligação.

No ambiente digital, a maior vulnerabilidade não é técnica — é comportamental. O criminoso não precisa invadir o tribunal quando consegue encenar uma audiência convincente. Ele não precisa quebrar criptografia quando a própria vítima, acreditando estar diante da Justiça, executa as transferências.


A sofisticação dos golpes aumentou porque a encenação aumentou.
A defesa precisa acompanhar esse nível.


Advogados devem tratar segurança digital como parte do compliance profissional. Clientes devem desconfiar de qualquer procedimento judicial que envolva urgência financeira via chamada informal. E todos precisam internalizar um princípio simples: autoridade legítima não pede Pix para liberar decisão judicial.

A informação continua sendo a melhor blindagem. E, nesse caso, ela pode significar a diferença entre receber um alvará — ou perder todo o saldo da conta.


Palestras e conscientização


A recorrência desse tipo de golpe revela algo que vai além do episódio isolado. Ela expõe um déficit estrutural de maturidade em segurança digital dentro de escritórios, departamentos jurídicos e até instituições públicas. O problema não está apenas na tecnologia disponível, mas na ausência de protocolos claros, treinamento contínuo e cultura preventiva.

Tenho levado esse debate para escritórios de advocacia, órgãos públicos e departamentos jurídicos por meio de palestras e treinamentos voltados à maturidade em segurança digital. O objetivo não é apenas ensinar a identificar um golpe específico, mas estruturar boas práticas institucionais: protocolos de comunicação segura com clientes, prevenção a engenharia social, proteção de identidade digital profissional, resposta a incidentes e blindagem reputacional.


Segurança não é um evento pontual.
É processo. É cultura.


Se sua instituição deseja fortalecer práticas internas, reduzir exposição a fraudes e elevar o nível de consciência digital da equipe, fale conosco. Prevenção é sempre mais barata — e menos traumática — do que remediar o dano depois que ele ocorre.

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